A intenção do Papa para este mês é pelo “Respeito e proteção da vida humana em todas as suas etapas, reconhecendo-a como um dom de Deus”. Neste sentido, acolhemos o dom como presente e graça; por isso, o cuidado e o respeito são princípios norteadores desde a concepção até o declínio natural da vida humana. Somos discípulos missionários prontos para defender a dignidade da vida, pois é contínuo e crescente o descaso e a exclusão de crianças e também das pessoas idosas.
Segundo antiga tradição, existe uma veneração pelos pais da Nossa Senhora: São Joaquim e Santa Ana, avós de Jesus. Os nomes deles são conhecidos por meio do Evangelho apócrifo de São Tiago, escrito no século II. Por volta do século VI, no Oriente cristão, e, entre os séculos X e XI, no Ocidente, prestava-se culto em honra a São Joaquim e Santa Ana, em consonância com as festas da Concepção e da Natividade de Maria. Vale recordar os anciãos que estavam no templo na apresentação do Senhor: Simeão e Ana (cf. Lc 2,21-40). São personagens que nos recordam a providência de Deus e sua bondade sem limites.
A memória de São Joaquim e Santa Ana é ocasião de homenagear as pessoas idosas, mas também oportunidade de refletir sobre o envelhecimento e a atenção à pessoa idosa. No Brasil, o Dia do Idoso é celebrado em 27 de setembro; porém, em 1991, a Organização Mundial da Saúde (OMS), no intuito de chamar a atenção mundial para a valorização e o desenvolvimento de políticas públicas voltadas à pessoa idosa, fixou a data de 1º de outubro como sendo o Dia Internacional do Idoso.
Segundo o Estatuto da Pessoa Idosa, “é considerada pessoa idosa o cidadão com idade igual ou superior a 60 anos”. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que, entre 2012 e 2021, houve um aumento de 11,3% para 14,7% da população com mais de 60 anos no país. Isso significa que o segmento de pessoas idosas saltou de 22,3 milhões para 31,2 milhões, crescendo 39,8% no período. Tais números demonstram que estamos vivendo mais” (Redação dada pela Lei nº 14.423, de 2022).
Esse mesmo Estatuto fala de muitos direitos reservados à pessoa idosa, a saber: o “envelhecimento é um direito personalíssimo e a sua proteção, um direito social, nos termos desta Lei e da legislação vigente” (Art. 8, dos Direitos Fundamentais). De igual modo, “é assegurada a atenção integral à saúde da pessoa idosa, por intermédio do Sistema Único de Saúde (SUS), garantindo-lhe o acesso universal e igualitário, em conjunto articulado e contínuo das ações e serviços, para a prevenção, promoção, proteção e recuperação da saúde, incluindo a atenção especial às doenças que afetam preferencialmente as pessoas idosas” (Art. 15, do Direito à Saúde).
É salutar saber dos direitos de uma nação para com a sua população, sobretudo os idosos. O processo de envelhecimento é uma característica inerente à vida humana, embora a sociedade pós-moderna imponha modelos e modos de comportamento que prometem fazer “milagres” para não envelhecer. No entanto, sob avanços tecnológicos, dermatológicos, cirúrgicos e medicamentosos, biologicamente o processo de envelhecimento chega, não somente com rugas e cabelos grisalhos, mas com a diminuição da energia motora, o surgimento de diversas doenças e a dificuldade nos reflexos da visão e da audição.
Para o padre Arnaldo Pangrazzi, “o desafio é descobrir que a identidade pessoal não se baseia no ‘fazer’ nem no ‘ter’, porém muito mais no ‘ser’. O segredo do envelhecimento é reconhecer que a idade não é contada apenas no calendário. Há septuagenários que demonstram mais entusiasmo e vitalidade do que pessoas de vinte anos que já parecem velhas” (PANGRAZZI, Criatividade a serviço dos doentes, 1998, p. 73). Para além do efeito cronológico, há que considerar os “mais velhos” como referência de sabedoria, confiança, piedade e profundo conhecimento da vida.
O envelhecimento pode ser acolhido como uma abertura para valorizar as amizades, a família e a espiritualidade. Em todas as etapas da vida existe a busca pelo sentido da existência e uma incansável ressignificação do existir. Para Francisco J. Alarcos, “a existência humana é a postura de não nos deixar anular por quaisquer das contingências, e o velar estritamente por preservar a autonomia e a participação ativa em nossa caminhada singular para a transformação em nós mesmos. Para isso, exige-se tempo e uma companheira dele: a paciência”. Efetivamente, ele diz que a paciência e também a esperança são elementos que conferem sentido: “o que a paciência pretende, em última análise, é não permitir que nada nem ninguém destrua a confiança básica interior, a esperança e a aposta em dar sentido ao viver” (ALARCOS, Bioética e pastoral da saúde, 2006, p. 283-284).
Dar sentido ao nosso viver é reconhecer que a condição humana é complexa, todavia, tem um valor profundo e divino. Assim sendo, a relação de ajuda pastoral, frente à realidade da ancianidade, deve ser sempre mais acolhedora, fraterna, paciente e orante. A pessoa idosa, naturalmente, tende a necessitar de maiores cuidados, dependente e suscita atenção humanizada. É verdade, também, que as pessoas que já estão nessa fase da vida não almejam “grandes aventuras”, mas desejam passos mais calmos e lentos para lhes acompanhar e sentidos atentos para ver, escutar e acolher. Há quem diga que, desde o nascimento, já estamos envelhecendo, ou seja, a preparação para envelhecer começa na juventude, cuidando do humor, do temperamento, do estilo de vida saudável, das relações verdadeiras e da alegria de viver a vida.
Pe. Gilmar Antônio Aguiar, MI
Assessor Eclesiástico da PSN
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Data: 16/07/2026