Preservar a Saúde Mental

Introdução

Nestes últimos meses, por causa da pandemia de COVID-19, o mundo voltou-se para a questão da saúde em suas mais variadas dimensões; uma delas é a saúde mental. Muitas pessoas apesar de, fisicamente estarem bem, mentalmente vivem em estado doentio. Isso se reflete em suas atitudes.

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), a saúde mental é a síntese da totalidade do bem-estar de uma pessoa envolvendo seus diversos aspectos: físico, biológico, afetivo, social, econômico, ambiental, intelectual, cultural, moral. Por causa da unidade do ser humano que se manifesta no dinamismo da íntima comunhão de corpo e alma, todas as dimensões são interdependentes e se expressam através da corporeidade.

Portanto, é preciso cuidarmos com o máximo zelo da nossa mente! Dela depende a qualidade da nossa vida: nossos pensamentos, preocupações, hierarquia de valores, escolhas, relacionamento com os outros, estilo de vida, virtudes e atitudes diante dos desafios. Por isso podemos dizer que quando a mente está doente, estamos em estado de enfermidade. Deus quer o nosso completo bem-estar!

  1. Fatores provocadores do adoecimento

O ser humano vive numa profunda relação com o contexto no qual ele vive. Nem tudo depende da nossa vontade. Por osmose, vamos absorvendo o clima no qual vivemos marcados por lutas econômicas, pressões políticas, tensões profissionais, exigências religiosas, parâmetros morais, carências familiares, a realidade da violência. Tudo isso influencia no nosso modo de pensar, sentir e agir!

Há outros condicionamentos que nos pressionam como as rápidas transformações culturais, tecnológicas, critérios de discernimento etc. Quando tudo isso não é acolhido e discernido com prudência e sabedoria, podemos nos sentir tão pressionados que tendemos a cair no adoecimento mental, moral e perdemos a serenidade e o equilíbrio. 

Todavia, nós somos muito mais do que as circunstâncias pelas quais passamos e também mais fortes do que os contextos mais cruéis possíveis, aos quais possamos vir a ser submetidos. O fundamental é que façamos o esforço para preservar a nossa identidade, a nossa interioridade, a nossa consciência. 

O médico psiquiatra Viktor Flankl observando as atitudes dos prisioneiros no campo de concentração de Auschwitz durante a Segunda Guerra Mundial via que quase todos entravam com as mesmas condições físicas, mas o processo de definhamento era muito diferente entre eles. O médico chegou à conclusão de que tudo dependia da “preservação mental” e da capacidade de dar sentido para a própria vida naquela situação.

A saúde mental está profundamente relacionada à nossa capacidade de dar sentido para as nossas experiências, ou seja, para tudo aquilo que fazemos, sofremos, buscamos, temos e sonhamos (cf. Viktor Frankl. Em busca de Sentido).

  1. Pandemia e Saúde mental

A atual experiência de pandemia pela qual estamos passando tem provocado grande impacto no comportamento das pessoas: a disciplina no próprio comportamento, o distanciamento social, o uso de máscara que nos leva a esconder o nosso rosto e assim não contemplarmos o rosto do outro e não nos deixamos contemplar, o confinamento que nos exige ficar em casa, o medo do contágio da doença, a pressão dos noticiários falando de doença e morte todos os dias etc. Tudo isso tem causado sérios danos na vida de muitas pessoas.

Blindar-se das influências dessas realidades negativas é um grande desafio. Exige de cada pessoa uma profunda capacidade de autoproteção de qualquer forma do confinamento mental; o “lockdown mental” é fatal! Isso acontece quando o medo nos abraça por inteiro gerando a paralisia da nossa capacidade de reação positiva, liquidando a nossa esperança, engolindo nossas bases de apoio espiritual, obscurecendo nossa capacidade de discernimento e visão do positivo.

O adoecimento mental é o resultado de uma série de fragilidades. Acontece quando não conseguimos preservar as diversas colunas que alicerçam o edifício da nossa existência: as nossas convicções religiosas, os nossos valores, as referências afetivas, sociais e culturais, as nossas ideias e sonhos. Uma vez que somos uma totalidade unificada de corpo e alma, na pluralidade de dimensões, o mal que padecemos interiormente, quando não contido e tratado, se materializa visivelmente no corpo. São as chamadas doenças psicossomáticas, ou seja, aquelas que são consequentes de desordens emocionais. Um forte mal-estar emocional e mental geram profundas alterações orgânicas. Isso é muito sério.   

  1. Atitudes preventivas e terapêuticas

Nestes meses no processo de acompanhamento de jovens, idosos, líderes de famílias, comunidades, pastorais, profissionais, constatamos situações muito delicadas caracterizadas pelo de excesso de ansiedade, medo, nervosismo, agressividade, fechamento pessoal, desânimo, crise, perplexidade… Não são poucos aqueles que nos enchem de “por quês”! Não temos respostas para tudo! Se o excesso de perguntas não é saudável, mais ainda a obsessão por uma resposta satisfatória.

    Diante desse delicado quadro, sem respostas para muitas perguntas, somos convidados a erguer a cabeça, renovar a fé e retomar alguns princípios importantes do bem-viver almejando a preservação e o desenvolvimento da totalidade dos recursos naturais dos quais somos portadores. Estamos em tempos de forte provação. Por isso vale a pena cultivarmos algumas importantes atitudes, tais como:

  1. Fazer todo esforço possível para não perder a visão da totalidade de nós mesmos; das nossas dimensões e talentos;
  2. Aprofundar a convicção de que somos sujeitos inteligentes, livres e responsáveis e, por isso, somos muito mais do que as circunstâncias pelas quais passamos;
  3. Exercitar-nos na arte de dar sentido para tudo aquilo que se passa conosco, tanto o bem quanto o mal;
  4. Fazer uma hierarquia das próprias preocupações; é importante dar atenção e preservar aquilo que é mais importante; não deixar a alma adoecer!
  5. Definir uma escala de valores e atitudes saudáveis; os valores funcionam como que balizas que nos norteiam no nosso dia a dia, nas escolhas e provações;
  6. Refletir sobre a situação alheia, o sofrimento dos outros; quando fazemos isso sempre encontraremos alguém que está numa situação muito mais grave; esse reconhecimento nos leva à gratidão e à solidariedade;
  7. Cultivar a esperança e o otimismo não se deixando amedrontar pela maldade, evitando cair no abismo do pessimismo e do derrotismo;
  8. Abrir-nos para a experiência de bons relacionamentos, através da amizade; quem tem bons amigos sente menos o impacto da solidão; a experiência do diálogo é terapêutico, mas quando nos fechamos, nos aniquilamos;
  9. Cultivar a capacidade de filtrar o negativo; há pessoa que gostam da “necrofilia” (paixão pela morte); devemos crescer na paixão pela bondade, beleza e vida; é preciso fazer assepsia mental;
  10. Cuidar da manutenção da vida espiritual, através da Oração, da leitura e meditação da Palavra de Deus, participação nas liturgias A fé cura, é terapêutica e confortadora. Por isso Jesus disse à mulher sofredora: “Coragem, filha! Sua fé curou você» (Mt 9,22).

PARA REFLEXÃO PESSOAL:

  1. Você já parou para refletir sobre a importância da saúde mental?
  2. Atualmente quais são as principais demandas que lhe causam pressão?
  3. Quais das atitudes elencadas mais lhe chamaram a atenção?

Artigo da CNBB Norte 2, Por Dom Antônio de Assis Ribeiro, SDB (Bispo Auxiliar de Belém – PA e Secretário Regional da CNBB Norte 2)

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