“A compaixão do samaritano: amar carregando a dor do outro”

A mensagem do Papa Leão XIV para o 34º Dia Mundial do Doente, neste ano, apresenta um fundamento bíblico bastante conhecido, porém muito atual e necessário: a parábola do bom samaritano (cf. Lc 10,25-37). A característica destacada desse personagem é a compaixão, isto é, sua atitude humana e fraterna diante de uma pessoa assaltada e deixada quase morta à beira do caminho. É interessante notar que a compaixão é uma propriedade divina, facilmente percebida em Jesus Cristo.

Esta Jornada do Dia Mundial do Enfermo é sempre celebrada em 11 de fevereiro, sendo neste ano solenemente comemorada em Chiclayo, no Peru. Como sabemos, nesta data celebra-se também o dia de Nossa Senhora de Lourdes. Em 1858, a Virgem Maria apareceu numa gruta chamada Massabielle, às margens do rio Gave, em Lourdes (França), a uma jovem chamada Marie-Bernard Soubirous, conhecida como Santa Bernadete. Segundo os relatos das aparições, a Virgem apareceu vestida de branco, com um longo véu sobre os ombros, uma faixa azul na cintura e os pés descalços, trazendo um rosário dourado e branco em seu braço.

A recomendação da Virgem Imaculada foi a construção de um santuário, a oração do rosário e a prática da penitência. Além disso, em uma das aparições, pediu que Bernardete cavasse um buraco, do qual começou a brotar a água de uma nascente milagrosa, na qual os enfermos poderiam se banhar pedindo a sua cura. A busca pela cura dos males e enfermidades revela a solidariedade e a vulnerabilidade humana expostas na parábola do bom samaritano. Ele se deixa afetar pela necessidade do outro, ele é “capaz de carregar a dor do outro”.

Nas palavras do Papa: “Desejei propor a reflexão sobre esta passagem bíblica com a chave hermenêutica da Encíclica Fratelli tutti, do meu querido predecessor, Papa Francisco, na qual a compaixão e a misericórdia para com os necessitados não se reduzem a um mero esforço individual, mas realizam-se na relação: com o irmão necessitado, com aqueles que cuidam dele e, fundamentalmente, com Deus, que nos oferece o seu amor”.

O Papa Leão XIV divide sua mensagem em três pontos: o dom do encontro, a alegria de oferecer proximidade e presença; a missão partilhada no cuidado dos doentes; e o agir sempre movido pelo amor a Deus, para nos encontrarmos a nós mesmos e ao próximo. Trata-se de uma tríade reflexiva que nos recorda a figura do samaritano como alguém profundamente atento às necessidades do próximo, que não tem medo de se aproximar e prestar socorro. Segundo o Papa, “o samaritano ‘encheu-se de compaixão’. Ter compaixão implica uma emoção profunda que conduz à ação. É um sentimento que brota do interior e leva a assumir um compromisso com o sofrimento alheio. Nesta parábola, a compaixão é a característica distintiva do amor ativo. Não é teórica nem sentimental, mas traduz-se em gestos concretos: o samaritano aproxima-se, cura, responsabiliza-se e cuida”.

Os gestos de aproximar-se e cuidar do sofrimento do outro fazem da figura do samaritano um modelo para a ação da Igreja no campo da saúde e na defesa das políticas públicas. Todo ato de cuidar torna-se uma missão, pois os passos dados no decorrer da intervenção geram compromisso, participação e missão. Com efeito, é fundamental educar o nosso olhar para não ver somente a doença, mas o doente; mais ainda, ver no doente a pessoa de Jesus sofredor, pois a dor dói muito mais quando não é assistida e cuidada.

Antes de concluir sua mensagem, Leão XIV pede a intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria, Saúde dos Enfermos, e afirma: “Desejo vivamente que nunca falte no nosso estilo de vida cristão esta dimensão fraterna, ‘samaritana’, inclusiva, corajosa, comprometida e solidária, que tem a sua raiz mais íntima na nossa união com Deus, na fé em Jesus Cristo. Inflamados por esse amor divino, poderemos realmente entregar-nos em favor de todos os que sofrem, especialmente dos nossos irmãos doentes, idosos e aflitos”. Assim, somos convidados a educar nossos sentidos e intensificar a caridade fraterna, como fez o bom samaritano, pois a realidade da dor e do sofrimento humano revela-se uma oportunidade de despertar em nós ações pastorais solidárias: acolhimento, escuta, paciência e ternura.

Pe. Gilmar Antônio Aguiar, MI – Assessor Eclesiástico da PSN

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