Tratar o tema da obesidade infantil nos tempos atuais é uma urgência global porque deixamos de lidar com uma preocupação estética para enfrentar uma crise de saúde pública e de direitos humanos. A aceleração deste fenômeno no século XXI está ligada a transformações profundas na forma como vivemos, comemos e nos movimentamos. Tratar a obesidade infantil no âmbito da Pastoral da Saúde é uma ação que une a missão espiritual ao compromisso social e humanitário. A Igreja, através da pastoral, exerce o papel de “serva da vida”, e a obesidade infantil é hoje uma das maiores ameaças ao desenvolvimento pleno e saudável das novas gerações.
Antigamente, a grande preocupação das políticas públicas de saúde era a desnutrição. Hoje, vivemos a chamada “transição nutricional”, onde muitas crianças sofrem de obesidade, mas continuam desnutridas em termos de micronutrientes (vitaminas e minerais), pois consomem calorias “vazias” vindas de alimentos ultraprocessados. No Brasil e no mundo, a prevalência da obesidade infantil cresce em um ritmo muito mais acelerado do que a obesidade em adultos, indicando que as próximas gerações estarão mais doentes mais cedo.
A base da Pastoral da Saúde é a defesa da vida em todas as suas etapas e a teologia cristã ensina que o corpo é “Templo do Espírito Santo”. Cuidar da saúde física da criança é uma forma de honrar a criação. Evitar que uma criança desenvolva doenças crônicas como consequência da obesidade (diabetes, hipertensão) é um ato de misericórdia preventiva, poupando-a de sofrimentos futuros e garantindo que ela tenha energia para servir e viver sua vocação.
A Pastoral da Saúde pode ajudar muito, uma vez que tem acesso direto às famílias, que são o núcleo onde os hábitos são formados. Muitas famílias ainda associam uma criança “gordinha” à saúde. A pastoral pode desmistificar isso com embasamento científico e acolhimento. O combate ao consumismo exacerbado e ao desperdício — temas caros à Doutrina Social da Igreja — reflete-se na escolha por alimentos naturais em vez de ultraprocessados.
Cientificamente, a obesidade infantil afeta hoje, de forma mais agressiva, as populações de baixa renda. Muitas vezes, as famílias compram alimentos ultraprocessados (biscoitos, refrigerantes) não por escolha, mas por serem mais baratos que frutas e legumes. Representantes da pastoral nos Conselhos Municipais de Saúde podem cobrar políticas de alimentação escolar de qualidade e espaços seguros para lazer e atividade física nos bairros periféricos.
Mas o que é a obesidade infantil?
A obesidade infantil é uma condição médica caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura corporal em crianças e adolescentes, a ponto de comprometer a sua saúde atual e futura. Diferente do adulto, o organismo da criança está em constante desenvolvimento, o que torna essa condição particularmente complexa e perigosa.
A obesidade infantil é uma doença crônica, progressiva e que envolve vários fatores. Do ponto de vista fisiopatológico, ela decorre de um desequilíbrio persistente entre a ingestão calórica e o gasto energético, influenciado por uma complexa interação entre questões genéticas, metabolismo da criança e determinantes socioambientais.
Como se identifica a obesidade em crianças?
Diferente da avaliação em adultos, a definição de obesidade em pediatria deve considerar a composição corporal dinâmica e as variações de crescimento. O Índice de Massa Corporal (IMC) é um dos indicadores usados Organização Mundial da Saúde (OMS) para verificação do estado nutricional, calculado a partir da seguinte fórmula: peso atual (kg) / estatura (m)2. O valor obtido é colocado em gráficos da OMS que comparam a criança com outras da mesma idade e sexo.
Daí é possível classificar a obesidade em:
- Sobrepeso: IMC entre o percentil 85 e 97.
- Obesidade: IMC acima do percentil 97.
- Obesidade Grave: IMC acima do percentil 99.
Além do IMC, a identificação científica da obesidade infantil envolve a avaliação da distribuição de gordura e marcadores biológicos, como a circunferência abdominal, indicador de gordura visceral, fortemente associado ao risco cardiometabólico. Acantose Nigrican, que são manchas escuras em dobras cutâneas (pescoço e axilas), sinal clínico muito comum de resistência à insulina, indicador de uma Diabetes no futuro. Também a avaliação de níveis de triglicerídeos, colesterol e glicemia de jejum para detectar síndrome metabólica precoce.
Situação no Mundo e no Brasil
A obesidade infantil é considerada uma epidemia global silenciosa. No mundo, segundo a OMS, o número de crianças e adolescentes com obesidade aumentou dez vezes nas últimas quatro décadas. Estima-se que mais de 124 milhões de crianças e adolescentes ao redor do globo sejam obesos e a estimativa é que, até 2030, cerca de 250 milhões de crianças no mundo estejam obesas (a população brasileira em 2025 é estimada em 213,4 milhões de habitantes em 1º de julho, segundo dados divulgados pelo IBGE).
O problema deixou de ser exclusivo de países ricos; países de média e baixa renda apresentam os crescimentos mais acelerados devido ao consumo de alimentos ultraprocessados baratos.
No Brasil, o cenário é alarmante. Os números da obesidade infantil no Brasil revelam um cenário de emergência em saúde pública. Dados do Ministério da Saúde indicam que 3 em cada 10 crianças entre 5 e 9 anos estão acima do peso. Cerca de 12,4% das crianças brasileiras já sofrem com obesidade. Atualmente, estima-se que 6,4 milhões de crianças brasileiras tenham excesso de peso e 3,1 milhões já apresentem obesidade.
- Crianças menores de 5 anos: Aproximadamente 10% apresentam excesso de peso e 3% já estão na faixa de obesidade.
- Crianças de 5 a 9 anos: É a faixa mais crítica. Cerca de 33% (1 em cada 3) estão com excesso de peso e 13% a 15% sofrem com obesidade.
- Adolescentes (10 a 19 anos): Cerca de 25% a 30% apresentam excesso de peso, com uma tendência de crescimento maior entre os meninos.
Embora a obesidade atinja todo o país, as regiões Sul e Sudeste apresentam os maiores índices de excesso de peso, associados ao maior grau de urbanização e acesso a alimentos industrializados. Contudo, o crescimento mais acelerado hoje ocorre nas regiões Norte e Nordeste, onde a oferta de alimentos frescos está sendo rapidamente substituída por produtos ultraprocessados de baixo custo.
O crescimento da obesidade no Brasil é um dos mais rápidos do mundo. Nos últimos 40 anos, a prevalência de obesidade entre crianças e adolescentes brasileiros saltou de menos de 2% para os níveis atuais, gerando um aumento de 600%. O Atlas Mundial da Obesidade prevê que, em 2030, o Brasil terá quase 8 milhões de crianças e adolescentes obesos (a cidade de São Paulo possui uma população estimada de aproximadamente 11,9 milhões de habitantes em 2025, sendo a cidade mais populosa do Brasil), colocando o país entre os mais afetados do planeta.
As causas principais no país incluem o sedentarismo (uso excessivo de telas) e a substituição da dieta tradicional (arroz e feijão) por produtos industrializados e bebidas açucaradas. Os dados explicam o porquê dos números acima. Cerca de 80% das crianças brasileiras menores de 2 anos já consumiram alimentos ultraprocessados (biscoitos, salgadinhos, refrigerantes). Apenas 30% dos adolescentes brasileiros cumprem a recomendação da OMS de 60 minutos de atividade física diária. Mais de 60% das crianças brasileiras passam mais de 3 horas por dia em frente a telas (celular, TV, tablet), o triplo do recomendado para algumas idades.
A obesidade não é apenas uma questão de saúde individual, mas um custo bilionário para o Estado. O Brasil gasta anualmente cerca de R$ 1,5 bilhão apenas para tratar as complicações diretas do excesso de peso no SUS (diabetes, hipertensão, problemas cardíacos). Se a tendência continuar, o custo total (direto e indireto) da obesidade no Brasil pode chegar a R$ 10 bilhões/ano na próxima década.
Se nada for feito, a geração atual de crianças brasileiras pode ser a primeira a ter uma expectativa de vida menor que a dos seus pais, devido ao surgimento precoce de doenças metabólicas graves.
Padre Tiago Gurgel do Vale
médico pediatra CRM. 110.455 SP
Membro da comissão especial de Bioética da CNBB
Iremos dar continuidade a esse tema tão importante. Aguarde a parte II
Imagem criada por ChatGPT (OpenAI) – 30/01/2026