A ÉTICA NA ENFERMAGEM

Dentre as finalidades da Pastoral da Saúde está a defesa da vida, desde a concepção até a morte natural. A Pastoral da Saúde Nacional não poderia ficar inerte diante dos últimos acontecimentos, ocorridos no hospital Anchieta, localizado em Taguatinga – DF, onde pacientes perderam a vida, em razão de administração intencional e indevida de medicamentos por técnicos de enfermagem.

Embora o ocorrido seja motivo de grande indignação, sabemos que esse fato não reflete a realidade de milhares de profissionais de enfermagem, que atuam com ética, dignidade e respeito ao ser humano.

A enfermagem tem papel fundamental no cuidado com os enfermos, dedicam-se de maneira incansavelmente, atuando para proporcionar bem estar, alivio da dor e recuperação da saúde. A esses profissionais nosso carinho, respeito e admiração e que Deus, em sua infinita misericórdia, continue abençoando iluminando a todos.

Ética profissional e responsabilidade no cuidado

A ética profissional na enfermagem, assim como em todas as profissões que atuam na saúde, não é um adorno curricular; é o fundamento que separa a técnica da barbárie. Em uma UTI, onde o paciente está em sua máxima vulnerabilidade, o profissional detém um poder absoluto sobre aquele corpo. Sem uma consciência ética sólida, os protocolos de segurança tornam-se meras sugestões. A integridade moral deve ser o primeiro requisito para qualquer profissional de saúde, pois a técnica sem ética é uma arma perigosa.

A atuação do técnico de enfermagem em uma UTI representa um dos maiores desafios éticos da área da saúde. Por estarem na linha de frente do cuidado direto e contínuo, esses profissionais lidam com pacientes que, em sua maioria, não podem se comunicar, decidir ou se defender. Na UTI, o paciente está em estado de dependência total. A ética, neste contexto, funciona como um escudo protetor. O profissional ético cuida do paciente sedado com o mesmo rigor e respeito que dedicaria a alguém consciente. O técnico de enfermagem é, muitas vezes, o primeiro a perceber mudanças sutis ou sinais de dor. Agir eticamente é reportar essas alterações imediatamente, garantindo que o interesse do paciente esteja acima da conveniência da rotina do plantão.

Ética, segurança e limites profissionais

Diferente de outras unidades, na UTI a margem para erro é mínima. Administrar uma medicação na dosagem errada ou ignorar um alarme de monitor não são apenas falhas técnicas; são infrações éticas. A ética exige que o profissional reconheça seus limites: se não sabe manipular um equipamento ou uma medicação desconhecida, o dever ético é pedir orientação, e não agir na dúvida. O cumprimento rigoroso dos protocolos para a segurança dos pacientes é a aplicação prática da ética da responsabilidade. A ética na UTI é o que garante que a tecnologia sirva à vida, e não o contrário. Sem ela, a UTI torna-se um lugar de frieza mecânica; com ela, torna-se o lugar da mais alta expressão do cuidado humano.

O ensino da ética na formação em enfermagem

O ensino da ética nos cursos de formação de técnicos em enfermagem não é apenas um complemento teórico, mas o alicerce que sustenta toda a prática profissional. Enquanto as disciplinas técnicas ensinam o como fazer, a ética ensina o porquê fazer e, principalmente, os limites do que não deve ser feito.

O aluno que ingressa no curso de técnico em enfermagem muitas vezes traz uma visão romantizada ou puramente mecânica do cuidado. O ensino da ética transforma esse olhar. O estudante aprende que ele não é apenas um “ajudante do médico ou do enfermeiro”, mas um profissional com autonomia, deveres e direitos próprios. É na formação que se compreende o Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem, essencial para que o técnico saiba quando uma ordem é ilegal ou coloca em risco a vida do paciente, dando-lhe respaldo para dizer “não”. Saber o que é certo é diferente de ter coragem para fazer o certo, especialmente em ambientes hierarquizados como hospitais. O curso deve treinar o futuro profissional para ser o advogado do paciente, garantindo que a dignidade da pessoa assistida seja respeitada acima de interesses burocráticos.

Muitas vezes, o erro na enfermagem não é técnico (errar a veia), mas ético (tratar o paciente com frieza, expor sua intimidade ou ignorar sua dor). O ensino ético combate a “coisificação” do paciente. Ele ensina que o corpo no leito é uma pessoa com história, medos e família. Em tempos de redes sociais, a formação ética é crucial para que o técnico entenda a gravidade de compartilhar informações ou imagens de pacientes, o que constitui crime e falta ética grave. Um profissional formado eticamente tem a humildade de admitir um erro imediatamente. Na enfermagem, esconder um erro (como uma troca de medicação) pode ser fatal. A ética ensina que a transparência é o primeiro passo para salvar a vida que foi colocada em risco por uma falha.

Ética institucional e gestão hospitalar

Para que o ensino da ética seja efetivo, as instituições de ensino precisam adotar estratégias práticas. Em vez de apenas ler o código de ética, os alunos devem ser expostos a estudos de caso reais e simulações de dilemas éticos. Ensinar o profissional a reconhecer sinais de esgotamento ou desvios de conduta em si mesmo e nos colegas, promovendo a coragem para denunciar práticas inseguras.

Investir na formação ética não é um “luxo” institucional ou uma atividade extracurricular; é uma estratégia fundamental de gestão de riscos, segurança do paciente e sustentabilidade hospitalar. Quando um hospital negligencia a cultura ética, ele se torna vulnerável a tragédias judiciais, crises de imagem e, o mais grave, à perda de vidas evitáveis. A maioria dos erros hospitalares graves não acontece por falta de aparelhos modernos, mas por falhas de comportamento, comunicação e omissão — todos campos da ética.

Hospitais que investem em ética criam um ambiente onde o profissional se sente seguro para admitir um erro imediatamente. Isso permite uma intervenção rápida que pode salvar a vida do paciente. O ambiente hospitalar, especialmente em UTIs e Emergências, é altamente desgastante. Sem suporte ético e psicológico, o profissional pode tratar pacientes de forma mecânica e desumanizada. Por isso, o hospital deve oferecer suporte para que o profissional consiga processar dilemas morais (como decidir quem recebe um leito ou lidar com a morte). Um profissional psicologicamente assistido tem muito menos chances de cometer abusos ou negligências.

Mas como o hospital pode investir na prática? Incentivar que os dilemas éticos difíceis sejam discutidos em equipe, ouvindo técnicos, enfermeiros e médicos, e não apenas decididos de forma autoritária. Criar mecanismos anônimos onde um profissional possa reportar comportamentos inadequados de colegas sem sofrer retaliação. Em vez de palestras chatas, usar simulações onde a equipe precisa tomar decisões éticas sob pressão, aprendendo a priorizar o bem-estar do paciente. O hospital que não investe em ética está, na verdade, pagando para correr riscos desnecessários. A técnica salva o corpo, mas a ética salva a instituição e a dignidade do paciente.

Solidariedade e compromisso pastoral

Casos como este mostram que a falha ética de um profissional fere toda uma categoria que trabalha com dedicação. Proteger a ética é proteger a própria enfermagem e, acima de tudo, garantir que ninguém entre em um hospital com medo de quem deveria salvá-lo.

Nossa solidariedade às famílias enlutadas. Rogamos a Deus que de força e fé para superar esse momento de dor e tristeza, pela perca prematura de pessoas queridas. Visando o bem estar de todos, nos manteremos em oração para que em algum momento seja possível, aos familiares, praticar o exercício do perdão.

O ocorrido, no Hospital Anchieta, deve servir de alerta aos Agentes da Pastoral da saúde, as ações de assistência espiritual não devem se limitar aos enfermos, mas devem se estender aos familiares e profissionais da saúde. Os Agentes devem ainda contribuir para o monitoramento das instituições de saúde, criando um ambiente de vigilância coletiva, fortalecendo a proteção de vulneráveis.


Marlene Salette Marsaro
Coordenadora PSN

Padre Tiago Gurgel do Vale
Médico CRM. 110.455 SP
Membro da comissão especial de Bioética da CNBB

Imagem criada por ChatGPT — OpenAI | 24/01/2026

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